12.4.10
textos em que se refere o jardim de eurídice (1) - breve apontamento sobre a tempestade.
Então a cidade inundou: o chão não engoliu toda a chuva que tanto caiu. As ruas tornaram-se rios. As correntes aceleraram. As pessoas correram para debaixo dos beirais, para dentro dos cafés. Com a trovoada dispararam os alarmes das lojas. Perguntas: quanto tempo isto ainda vai durar? Estás dentro do carro, absurdamente concentrado nas grossas gotas que batem no vidro, no barulho que fazem, no percurso desde que isolas uma delas na sua queda e a segues até ao fim do seu ciclo. Recebes um telefonema, um amigo pergunta-te como está a cidade no temporal, respondes que nunca viste nada assim, que estás preso no carro concentrado, exageradamente concentrado na chuva que cai, descreves os dez minutos que demoraste a atravessar o jardim de Eurídice, que habitualmente fazes em dois, explicas como o trânsito se alterou na Alameda de Santa Catarina de Alexandria e como dois muros aluídos na rua das Escolas Gerais a deixaram num lamaçal. Então a cidade inundou: a chuva tornou-se ainda mais forte, o ruído das gotas no carro tornou-se assustador, primeiro, insuportável de seguida. Não consegues sair do carro, ouves uma sirene - será um alarme? - e tens medo.
 
posted by Eduardo Brito at 11:06 da manhã | Permalink |


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