31.1.10
citação.
Sempre me fascinou o trabalho fotográfico, disse Austerlitz, o momento em que as sombras da realidade, por assim dizer, emergem do nada para o papel exposto, como as recordações que assomam em nós a meio da noite e que depois, quando tentamos agarrá-las, logo se ensombram de novo, da mesma maneira que uma prova fotográfica que se deixou no banho de revelador durante demasiado tempo.

W. G. Sebald, Austerlitz, Ed. Teorema, p 72.

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posted by Eduardo Brito at 9:31 da tarde | Permalink | 0 comments
25.1.10
tchèque, hibou ni tchik-tchik.
Albin de La Simone: Il aime les joues de dinde, les restaurants anglais,
la mythologie suisse et l'odeur des bébés.

Chama-se Albin de la Simone e é o maior. Um dos maiores, melhor dizendo. Um dos maiores de sempre da chanson française. Tem um dueto com a enorme Leslie Feist chamado Elle Aime que é uma coisa de outro mundo. Basta atentar nos versos iniciais:

Elle aime les films hongrois
Sous-titrés en tchèque
Bach, Repac, Bartok
Et l'opéra chinois
Les culottes en velours
Les vapeurs de gasoil
Le civet de bulot
Et les œufs de cent jours


Aliás a passagem radiofónica Elle Aime (Simone /Feist) para Inside Out (Feist) funciona que é uma maravilha.

Bem, chama-se Albin de la Simone, é um grande senhor da chanson française e vai estar, dia quatro de Fevereiro, no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, dia cinco em Estarreja, no Teatro Municipal e dia seis em Lisboa no Instituto Franco-Português. Os concertos têm dedo da Lugar Comum.

http://www.albindelasimone.com/
 
posted by Eduardo Brito at 3:51 da tarde | Permalink | 2 comments
20.1.10
a lição.
Em Julho de mil oitocentos e trinta e dois, a esquadra liberal de D. Pedro IV, a caminho do desembarque do Mindelo, encontrou uma lancha de pescadores ao largo da costa norte portuguesa. Da embarcação principal da frota liberal veio a pergunta: são vocês portugueses? Os pescadores responderam: Não. Somos da Póvoa de Varzim.

Nós somos da Póvoa de Varzim é o título da última aula do Professor Alexandre Alves Costa. Sem relação com o parágrafo anterior, é amanhã, às dezassete e trinta, na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Transmissão em streaming para ver aqui.
 
posted by Eduardo Brito at 12:18 da tarde | Permalink | 2 comments
15.1.10
what are you up to, brian?
One morning in 1979, Brian Duffy, then one of the most famous photographers in the world, came into work. One of his assistants told him they had run out of toilet paper. His memory is hazy, he admits, but what happened next became an ­episode of snapper folklore.

"I realised," he recalls in a documentary that airs on BBC4 ­tonight, "that I was making decisions about toilet ­paper. And I thought, 'This has got to end.' Either by me murdering my staff, killing myself, or setting fire to the whole fucking thing." So he gathered every negative and transparency he had ever shot and burned them on a fire in his back garden. After that, he never took another picture.


A história prossegue aqui.
[Leo Benedictus - guardian.co.uk]
 
posted by Eduardo Brito at 3:18 da tarde | Permalink | 0 comments
7.1.10
falemos.
 
posted by Eduardo Brito at 4:05 da tarde | Permalink | 2 comments
6.1.10
o brother, where art thou?
 
posted by Eduardo Brito at 10:29 da manhã | Permalink | 0 comments
5.1.10
onde a memória se detém. *
A expedição punitiva de Decimus Junius Brutus às Hispânias chegou à margem sul do rio Lima no verão de 135 a. C.. O tempo estaria invulgarmente quente. E os soldados profundamente fatigados. Havia uma crença que corria pela legião: aquele rio era o rio do esquecimento - quem o cruzasse, perderia a memória de tudo o que houvera vivido e aprendido. O rio Lethes.

Dizia S.: sempre que penso em esquecer o que quero e o que preciso esquecer, a fixação do que quero esquecer cresce e torna-se mais forte. Lentamente, a minha memória passa a ser feita de recordações sobre recordações de tentativas de esquecimento. É como se areia me corresse nas veias, esvaziando-lhes o sangue. E a memória da lembrança derrota a ciência do esquecimento.

Toda a legião de Decimus Junius Brutus se recusou a atravessar o rio. Ninguém queria esquecer. À ordem do general, nenhum soldado avançou. Alguns voltaram para trás. Brutus ordenou então às tropas que observassem o que ele se preparava para fazer. Atravessou o rio e, da outra margem, chamou os seus homens pelo nome, um a um.

No verão de 2006, N. destruiu cinco mil horas de fita de vídeo onde, durante seis anos, gravou o tempo dos lugares em que viveu ou por onde passou. Quero documentar a história do meu tempo e a memória é a única forma de regresso, escreveu no início da sua longa recolha. Ao desfazer-se de tudo o que gravou, N. mergulhou no Lethes. Antecipou o instante em que tudo se esquece, em que a memória se apaga na desintegração do mundo.

No lento instante em que Decimus Junius Brutus se deixou molhar pela água do Lethes, iniciando a sua travessia, pensou: o que me espera do outro lado da memória?

Auggie Wren é dono de uma tabacaria em Nova Iorque. Todos os dias, exactamente às sete horas da manhã, fotografa a esquina da Rua Três com a Sétima Avenida. Estamos no filme Smoke, de Wayne Wang e Paul Auster. Ao longo de dezenas de anos, Auggie arquiva e cataloga mais de quatro mil fotografias desse mesmíssimo lugar, povoado por milhares de pessoas em trânsito. Quando mostra a sua colecção de imagens a Paul Benjamin, este percorre-a em ritmo apressado, quase automático. Auggie diz: you'll never get it if you don't slow down, my friend.



* texto publicado na VAAA #1 - Veículo para os Assuntos da Arte e Arquitectura, em Novembro de 2009.
 
posted by Eduardo Brito at 3:06 da tarde | Permalink | 1 comments
4.1.10
o tipo artesanal.

Uma edição de nove poemas, de José Miguel Silva, Manuel de Freitas e Rui Pires Cabral, com ilustrações de Piggy, Jucifer, José Feitor, Bárbara Assis Pacheco, Luís Henriques, André Lemos, Maria João Worm, Daniela Gomes e Bruno Borges para a Oficina do Cego, em Lisboa, no final de 2009.
 
posted by Eduardo Brito at 9:14 da manhã | Permalink | 1 comments