2.12.09
elementar, meu caro meira.

João de Meira [1881-1913] foi um ilustre português. Nascido em Guimarães. Médico. Professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Um gozão. Um intelectual. Um homem da desordem. Escreveu autos de Gil Vicente e sonetos de Antero formalmente irrepreensíveis. Publicou-os como inéditos. E todos foram na cantiga. Meira morreu novo. O que deixou feito deixou no ar a ideia do tanto que ficou por fazer.

João de Meira lia Holmes. Sabia-o de cor e salteado: os modos, os hábitos, os vícios e os métodos. Conhecia na perfeição a ciência da dedução do ilustre detective. E mais e melhor: sabia e dominava o modo como Doyle o escrevia e tratava, do pequeno pormenor descritivo à estrutura narrativa utilizada. Sabia, por exemplo, que Doyle, ao apresentar um caso, referia cinco ou seis já resolvidos - quase todos, por regra, bem mais importantes que o caso banal em apreço: um clássico do engrandecimento holmesiano.

É assim que surge, em 1912, Sherlock Holmes no Porto - O Cadáver Que Se Evade e O “Truc” de Mr. Raymond - assinados por Meira como Donan Coyle. São duas empolgantes aventuras do detective londrino, radicado no Porto (onde mais em Portugal?). E são, também, dos melhores pastiches das histórias de Arthur Conan Doyle.

Sherlock Holmes no Porto – O Cadáver Que Se Evade ou O “Truc” de Mr. Raymond – é lançado no dia três de dezembro de dois mil e nove na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães. É o segundo número da colecção de minimis, a edição de bolso de textos esquecidos da Sociedade.

Assinale-se a divina desordem: Sherlock Holmes, produto de Arthur Conan Doyle, médico de formação, foi inspirado em Joseph Bell, seu professor; Holmes portuense, produto de João de Meira, médico de formação, apareceu no jantar de jubilação de Maximiniano de Lemos, seu professor.


Do Posfácio da edição:

Ficou célebre a série de textos que, em 1911, João de Meira dedicou ao Professor Maximiano de Lemos, num jantar que comemorava a sua jubilação do ensino da medicina, que, anos mais tarde, seria recordado por um dos que nele participaram, Cândido de Pinho: “No intervalo de cada um dos pratos João de Meira levantava-se, simples, recolhido e solene, e, chegando junto de Maximiano recitava-lhe um texto, composto no estilo dos nossos literatos mais notáveis desde o XII século até agora, alusivo à sua jubilação. A linguagem, o pensamento, a estrutura da frase, a própria feição crítica ou dialéctica do autor, achavam-se reproduzidas com uma exactidão inexcedível. Ninguém diria que não estava ouvindo um trecho impressivo dum dos nossos mais considerados literatos, prosadores e poetas. Assim foram desfilando naquele cortejo apoteótico e comemorativo o rei D. Dinis, Fernão Lopes, Cristóvão Falcão, Luís de Camões, Diogo Bernardes, Padre António Vieira, Fialho de Almeida, Eça de Queiroz, António Nobre, Xavier de Novais e outros até concluir por uma engraçada facécia, estilo Conan Doyle, intitulada Sherlock Holmes no Porto. (...)

“– Watson, disse-me Sherlock Holmes mal nos sentamos no eléctrico de Paranhos, vê aquele sujeito gordo, que vai naquele canto? É a primeira vez que o avisto mas já lhe posso dizer que é médico militar, professor da Escola Médica, casado, não tem filhos e mora em Vila Nova de Gaia.
Perguntei a Sherlock Holmes em que fundava essas extraordinárias revelações. Ele explicou, sem se fazer rogado, sorrindo e enchendo de tabaco da Virgínia o seu magnífico cachimbo de espuma e âmbar:
– É muito simples, é quanto há de mais fácil. Não viu aquele sargento que passou para a plataforma fazer-lhe a continência e aquele quintanista de medicina cumprimentá-lo, ao entrar, com todas as atenções? Daí concluo que é militar e professor na Escola Médica, e como não é natural que seja a um tempo tenente-coronel ou major e lente de medicina, convenço-me de que é médico militar.
E Sherlock Holmes, gozando a minha admiração, tirava grandes fumaças do seu cachimbo de espuma e âmbar. Depois continuou:
- Mora em Vila Nova de Gaia porque quando abriu a carteira para pagar a passagem, lhe vi um passe que não é válido nestas linhas, senão dispensava-se de pagar aqui. Logo esse passe é da linha de Gaia. É casado porque traz no dedo a aliança de ouro; e não tem filhos porque entregou um tostão ao condutor para pagar bilhete de pataco e recusou o troco.
- São de verdade admiráveis as suas deduções, exclamei.
– Então que diria você, Watson, acrescentou Sherlock Holmes, se lhe contasse que o homem se chama Maximiano Lemos, é escritor, e se ocupa da história da medicina?
- Diria, mestre, que essa seria a prova suprema do seu famoso método.
- Pois Watson, é escritor, como o mostram o polegar e o índex direitos manchados de tinta. E vê você aqueles quatro volumes que todos dizem na lombada Ribeiro Sanches, por Maximiano Lemos? Eles provam que o indivíduo que os conduz é o autor, que os vai ofertar a alguns amigos, pois outra pessoa não traria na mão quatro exemplares da mesma obra. De resto nos botões de punhos vê-se um M e um L entrelaçados. E sendo o livro sobre um médico antigo o autor ocupa-se de história da medicina.
- E aí tem, Watson, concluiu Sherlock Holmes, enchendo novamente o seu cachimbo.
Então levantei-me e dirigindo-me ao homem gordo disse-lhe:
- O cavalheiro faz o favor de dizer-me como se chama?
- Manuel Luís. A sua profissão?
- Caixeiro de livraria.
- Mora em Gaia?
- Não, moro em Rio Tinto.
- É casado, certamente? Sou viúvo.
- Tem filhos ?
- Tenho quatro.
- E assim desperdiça dinheiro em gorjetas aos condutores dos eléctricos?
- Perdão, eu não desperdiço nada. Mandei o condutor ficar com os 60 réis, que lhe devia por não ter troco um dia destes.
- Conhece aquele quintanista que vinha aqui defronte?
- Conheço. Deve bastante dinheiro lá na livraria.
- E aquele sargento que lhe fez a continência?
- Não conheço, mas conhece-me ele que sou alferes da reserva.
Olhei para o lado. Sherlock Holmes tinha desaparecido
.”
 
posted by Eduardo Brito at 11:19 da manhã | Permalink |


1 Comments:


At 10:50 da manhã, Blogger Pedro Mota Prego

Desculpa a futilidade do comentário, mas já viste o novo filme do Sherlock Holmes que aí vem, com o Robert Downey Jr. e o Jude Law? Parece mesmo muito mau! Tenham medo, muito medo...