31.8.09
a divina desordem: and it rained on my house all summer.
No mês de Agosto de 1999 esembarquei seis caixas de Épineuil na margem do Yonne e dois sacos de correio dde juta cinzenta cheios de livros. Arrastei-os ao longo do relvado.
O Verão começava bem. Era preciso ter esperança de não ver ninguém.
Nem um homem. Nem uma criança. Nem sequer as vespas.
Nem mesmo os besouros enormes e ferozes quando lemos na espreguiçadeira de lona, aberta no relvado ou arrastada mais longe, por cima das flores roliças e brancas dos trevos.
Nem sequer os arganazes que cirandam na poeira das tábuas secas do sótão quando adormecemos.
Nem sequer os mosquitos fêmeas que nos picam bruscamente enquanto sonhamos.
Nem sequer, no interior dos sonhos, pior que os mosquitos, a memória.
Nem sequer a própria linguagem.
Não havia um avião que atravessasse o céu.
Nem o menor som de transístor que o ar transportasse.
Nem uma lembrança de motor de tractor.
Nem um cortador de relva.
Nem um galo que cante.
Nem um cão.
Nem um baile.
Nem o menor simulacro de alegria à minha volta que me desse vontade de suicidar, deitando tudo para trás das costas. A felicidade crescia. Lia. A felicidade devorava-me. Li todo o verão. A felicidade devorou-me todo o Verão.



Pascal Quignard, Sombras Errantes, Gótica, pp 78-79.

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posted by Eduardo Brito at 12:01 da manhã | Permalink |


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