31.8.09
a divina desordem: and it rained on my house all summer.
No mês de Agosto de 1999 esembarquei seis caixas de Épineuil na margem do Yonne e dois sacos de correio dde juta cinzenta cheios de livros. Arrastei-os ao longo do relvado.
O Verão começava bem. Era preciso ter esperança de não ver ninguém.
Nem um homem. Nem uma criança. Nem sequer as vespas.
Nem mesmo os besouros enormes e ferozes quando lemos na espreguiçadeira de lona, aberta no relvado ou arrastada mais longe, por cima das flores roliças e brancas dos trevos.
Nem sequer os arganazes que cirandam na poeira das tábuas secas do sótão quando adormecemos.
Nem sequer os mosquitos fêmeas que nos picam bruscamente enquanto sonhamos.
Nem sequer, no interior dos sonhos, pior que os mosquitos, a memória.
Nem sequer a própria linguagem.
Não havia um avião que atravessasse o céu.
Nem o menor som de transístor que o ar transportasse.
Nem uma lembrança de motor de tractor.
Nem um cortador de relva.
Nem um galo que cante.
Nem um cão.
Nem um baile.
Nem o menor simulacro de alegria à minha volta que me desse vontade de suicidar, deitando tudo para trás das costas. A felicidade crescia. Lia. A felicidade devorava-me. Li todo o verão. A felicidade devorou-me todo o Verão.



Pascal Quignard, Sombras Errantes, Gótica, pp 78-79.

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25.8.09
a falsa arte.
Casado durante vinte e nove anos, o Senhor L. não perdoou à senhora L. a sua morte repentina. Menos de um ano depois da sua partida, iniciou uma relação com a senhora T., quinze anos mais nova. Muitos disseram, ò vozes sem fundamento, que o senhor L. mais não estava que a assumir em público a sua amantizada de há alguns anos. Mas não. O Senhor L. e a Senhora T. nunca se relacionaram antes do desaparecimento da Senhora L. É que, ao fim e ao cabo, o Senhor L, ao entregar-se de tão rápido e profundo modo à Senhora T. quis com isto dizer-se que não perdoava o inesperado adeus da Senhora L., súbito e sem qualquer despedida. Vingança, portanto, pela falsa arte do esquecimento. Já a Senhora T. sucumbira aos encantos do Senhor L por este lhe trazer de volta o irmão mais velho, que perdera em violento acidente um ano antes. Vingança, também, mas desta feita pela falsa arte da memória.
 
posted by Eduardo Brito at 9:14 da manhã | Permalink | 1 comments
23.8.09
a divina desordem: os cabos.
A great cape has a soul with very soft, very violent shadows and colors.

A soul as smooth as a child's, as hard as a criminal's.

And that is why we go.

One forgets everything, seeing only the play of the boat with the sea, the play of the sea around the boat, leaving aside everything not essential to that game.

One has to be careful, though, not to go further than necessary to the depths of the game. And that is the hard part...

not going too far.


Bernard Moitessier.
Fonte: Deep Water, de Louise Osmond e Jerry Rothwell , UK, 2007.

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19.8.09
a divina desordem: sobre a paisagem (2).
[Landscape] goes directly to the heart of one of our most powerful yeanings: the craving to find in nature a consolation for our mortality.


Simon Schama, Landscape and Memory, Vintage Books, p 15.

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posted by Eduardo Brito at 5:21 da tarde | Permalink | 0 comments
a divina desordem: sobre a paisagem (1).
Como ela [a morte], as paisagens fascinam-nos para que nos incluam.


Pascal Quignard, Vida Secreta, Notícias Editorial, p 173.

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17.8.09
los lunes al sol (3)
 
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12.8.09
a divina desordem: i know it was you, john cazale.
Fredo Corleone, The Godfather, Part I, Francis Ford Coppola, 1972.


Stan, The Conversation, Francis Ford Coppola, 1974.


Fredo Corleone, The Godfather, Part II, Francis Ford Copolla, 1975.


Sal, Dog Day Afternoon, Sidney Lumet, 1975.


Stan, The Deer Hunter, Michael Cimino, 1978.



I Knew It Was You: Rediscovering John Cazale: Richard Shepard, 2009: "A portrait of the acting craft of John Cazale and a tour through the movies that defined a generation."

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6.8.09
espanha, 1975.



David Locke:
- I know a man who was blind. When he was nearly 40 years old he had an operation and regained his sight.

Girl:
- How was it like?

David Locke:
- At first he was elated really high. Faces... colors... landscapes. But then everything began to change. The world was much poorer than he imagined. No one had ever told him how much dirt there was. How much ugliness.

He noticed ugliness everywhere.

(...)

Jack Nicholson & Maria Schneider in Professione: Reporter de Michelangelo Antonioni, Ita/Esp/ Fra, 1975.



Londres, 1966.
 
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