4.3.09
a divina desordem: pequeno texto sobre portugal.
Em cada nota do jazz de António Pinho Vargas há qualquer coisa de unicamente português. Não de uma portugalidade moralizadora, localizada no tempo e no espaço, mas sim de um sentido de lugar, como se Pinho Vargas fosse de todos onde cabe a sua música. A sua melodia é a casa de granito no Minho, as Vilas Morenas, o vento no Alentejo, a luz por trás dos montes, os pássaros da beira, o mar, imenso mar, de Moledo a Vila Real de Santo António precisamente porque será essa a exacta tradução musical desses lugares na sua relação com a ideia de Portugal de que são parte. Se há um sentir português, um sentimento de ocidentalidade periférica, um encontro com tudo o que dizemos ser nosso, ele é caracterizador da melodia de Pinho Vargas. Estes são os sons de uma paisagem abandonada, de uma miséria esperançada, de palavras enlameadas em sítios onde se demora demasiado tempo a chegar, da descrença das ruas da cidade que descem para o rio ao fim da tarde. Esta é a música de todo o lado, a ideia sonora de um país no final de século a olhar para séculos de história feita de melancolia e ilusão. Este é o som do Portugal por onde passámos. Este é o som que diz o meu país é isto, é assim. Sem pensar no que isto é, no porque é assim.
 
posted by Eduardo Brito at 9:14 da manhã | Permalink |


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