17.2.09
quem não é da rua de gatos?

Vista da Rua de D. João I. À direita, o Padrão de S. Lázaro.
Estereoscópia de Antero Frederico de Seabra, 1858.
© Sociedade Martins Sarmento

Chamava-se Rua de Gatos. Não porque felinos a passeassem, mas porque se situava entre regatos. Rua de Entre-regatos, logo abaixo da Rua de S. Domingos. Porta de entrada na cidade. Era o início da estrada para oeste, rumo a Vila do Conde. Hoje chama-se Rua D. João I. Foi por ali que o Rei entrou na cidade para agradecer à virgem uma vitória numa batalha. Subiu a rua a pé e o início da sua marcha ficou assinalado por um padrão "quase fronteiro à capela de S. Lázaro"*. A rua tem uma igreja românico-gótica, de pórtico barroco, um convento, uma capela que se fez no ano de 1600, um centro de oração da congregação cristã. Tem três tascas, três restaurantes., um barbeiro clandestino. Tem um hotel, uma loja de molduras, uma loja de equipamento de escritório vazia, uma loja de colchões e almofadas. Tem uma ilha chamada Bairro Catarina Eufémia. Tem um centro social, uma loja de bugigangas, um cabeleireiro feminino. Tem uma frutaria, uma padaria, uma mercearia, a mais bonita da cidade, um tribunal, uma funerária, cinco lojas de roupa, duas floristas e dois cafés. Tem dois palacetes belíssimos e as horríveis traseiras de um decadente centro comercial. Tem sombras e palavrões no ar. Cheira a comida ao meio dia. Rua de todas as ruas, tem a cidade toda dentro dela, metáfora perfeita do que é Guimarães, se é que a cidade se dá a figuras de estilo. Ramalho Ortigão escreve-lhe a definitiva poesia nos seus Banhos de Caldas: "(...) para mim, cidadão, para mim, português, para mim, escritor e artista, - que o Chiado me perdoe - acho-o insignificante, incaracterístico, ordinário, sem feição, sem relevo, sem linha, e prefiro-lhe a angustiada e escura rua dos Gatos em Guimarães, com os seus estreitos portais, as suas escadas empinadas e as suas miúdas gelosias encanastradas como as do coro dos mosteiros (...)".

* Caldas, P.e António José Ferreira, in Guimarães, Apontamentos para a sua História, 2ª Edição, Guimarães, CMG/SMS, 1996, parte II, pp. 422/424. [pdf]

 
posted by Eduardo Brito at 8:35 da tarde | Permalink |


2 Comments:


At 7:51 da tarde, Blogger Sílvia

eu agora gosto disto :)

 

At 11:10 da manhã, Blogger PR

Bom post, Brito