11.6.08
a divina desordem: elementos fabulosos.
"Um exemplo vem-me à memória: aquele de Maria Grazzini, cantora no Scala de Milão. Em 1805, Napoleão, a caminho de Veneza, pára em Milão e conhece Maria Grazzini. Acha-a deslumbrante, divertida e leva-a com ele. Rapidamente, pois então, deixa-a ao largo de Vicenza ou da Riviera Brenta. A história poderia parar aqui e ficar-se como uma peripécia secundária na vida de Bonaparte. Mas não. Maria Grazzini nasceu em Nice, a cidade onde Napoleão Bonaparte é iniciado na maçonaria. Alguns anos mais tarde, por alturas da batalha de Waterloo, Maria Grazzini é amante de Wellington, também ele maçon. E aqui isto começa a tornar-se interessante... Napoleão, logo que regressa da ilha de Elba e inicia o Governo dos Cem Dias desembarca em Nice! Algumas semanas depois, encontra-se face a Wellington, que tem um caso com uma das suas antigas amantes. Napoleão entrega-se à Batalha de Waterloo e nesse preciso dia é vitima de uma terrível disenteria. Não conheço exactamente a etimologia de Waterloo, mas sei que está relacionada com água. Como é que uma história destas é possível? Como é que ainda ninguém reparou nisto? O que se passou entre Maria Grazzini e Wellington nos dias que antecederam esta batalha? (...) E o que é mais interessante ainda é que Blücher, de quem acabou por depender o desfecho da batalha, também tinha Maria Grazzini debaixo de olho. Recapitulando todos os elementos: Maria Grazzini, Nice, a loja de Nice, Wellington, Blücher... Não posso deixar de ficar espantado, fascinado, pelo facto do destino da Europa ter sido traçado sob um fundo sentimental. Encontrar todos estes elementos fabulosos que parecem saídos da imaginação, é isso que me interessa."

Hugo Pratt, entrevista a Eddy Devolder, Tandem, Dezembro 1989, in Corto Maltese, Littérature Dessiné, ed. Casterman, 2006, pp 133 e 134.

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posted by Eduardo Brito at 9:58 da manhã | Permalink |


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