10.5.08
fascínios: o inútil citador.


Numa velha colecção de livros, encontro um exemplar de O Inútil Citador. A imagem de capa, gravada numa imitação de couro, chama a atenção. O toque tem aquela suavidade artificial da napa. As letras incrustadas não têm perdão do tempo e apresentam algum desgaste. Todos os elementos de estilo, acrescidos do teor do preâmbulo, parecem remeter esta edição para a segunda metade dos anos setenta. O título, intrigante e até então desconhecido, faz-me abrir esta edição sem editor. Um carimbo mostra que o livro andou pela livraria Chaminé da Mota, à Rua das Flores, Porto. "Caro leitor, seja bem-vindo ao Inútil Citador", leio num preâmbulo escrito por Albano Pinto. Continuo: "ao longo destas quase duzentas páginas encontrará citações dos grandes Mestres da Literatura Mundial - de Homero a Borges - todas elas de uma inutilidade inquestionável". Não acredito no que leio. Citações de inquestionável inutilidade? Perante esta declaração, de nada me serve saber do como e do para quê. Resta-me, ao menos, um porquê? que em nenhum lado do livro encontra resposta. Assim é este O Inútil Citador: apenas e só um livro de contra-citações ("se há uma arte da contra-citação, essa arte é esta", lê-se no preâmbulo, "inegavelmente herdeira do movimento britânico Unquoting"), sem qualquer indicação de seu uso ou desuso, do seu por que ou porquê, aparentemente apenas e só pelo prazer de uma boa frase inútil. Aqui ficam alguns exemplos, escolhidos ao acaso:

"Ivan ficou a saber, pelo relato do visitante, como os amantes passavam o dia."
Mikhail Bulgakov, in Margarita e o Mestre

"Estarão certamente de acordo que eu, de uma forma só aparentemente directa, passe a condições literárias concretas"
Walter Benjamin, in O Autor Enquanto Produtor

"É perfeitamente normal dar uma volta quando se tem insónias."
Stendhal, in Armance

"Pouco importa, no fundo, que a dispersão no texto seja rica aqui e pobre ali."
Roland Barthes, in Fragmentos de um Discurso Amoroso

"A certa altura, começaram a ficar alegres."
James Joyce, in Gente de Dublin

"Passei no colégio cerca de cinco anos que agora perco como num sonho de madrugada na distância da memória, e aos quinze anos voltei à minha Valverde de Lucerna."
Miguel de Unamuno, in S. Manuel Bom, Mártir

"Os fidalgos culpados tinham fruído pela última vez de um espectáculo de comédia."
Charles Baudelaire, in O Spleen de Paris

"Não a podia mesmo criar, pelas próprias condições do meu processo."
Fernando Pessoa, in O Banqueiro Anarquista

"Tosquenejou muitas noites sobre os bacamartes pulvéreos."
Camilo Castelo Branco,
in A Queda de um Anjo

"Outros, pelo contrário, acreditavam que a prioridade era eliminar as obras inúteis".
Jorge Luís Borges, in Ficções



O Inútil Citador,
V.A., preâmbulo de Albano Pinto, ed. ?, s/d., 198 páginas.

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posted by Eduardo Brito at 8:47 da tarde | Permalink |


1 Comments:


At 7:41 da tarde, Blogger Marta

Podes recomendar este livro ao Sr. Carlos Magno... assim ficava com mais umas quantas citações para desencantar nos seus discursos... :))