16.5.08
cine-clube de guimarães: cinquenta anos (6).

Antes da exibição de O Paraíso do Capitão, o Arquitecto Mário Bonito, referência do Cine-Clube do Porto, proferiu a seguinte palestra:

Aqui estou eu, um pouco embaraçado, com a incumbência de dizer-vos o que é e para que serve um cine-clube.
E embora não seja a primeira vez que tal me sucede, também é verdade que nunca fui capaz de desempenhar-me suficientemente bem destes encargos. Logo, não fui bem escolhido, se atendermos a este passado mal sucedido. E todavia a questão não é difícil de expor. Os próprios estatutos por que se regem estas associações, as definem no artigo 1.º mais ou menos deste jeito:—um cine-clube é uma associação não lucrativa, alheia a fins políticos, raciais ou religiosos, que tenta por todos os meios ao seu alcance, desenvolver no grande público o gosto pela sétima arte, etc., etc..
E diga-se que esta definição é já internacional, visto que há uma Federacão Internacional dos Cine-Clubes, como existem outras de Filmes de Amadores de Cinema Didáctico e Educativo. Quer isto dizer, que antes de nós já havia cine-cubismo em França, Inglaterra, Espanha, Itália e outros países.
Porém, entre nós, o cine-clubismo antecipou-se à criação da Cinemateca Nacional e de outros organismos auxiliares e complementares da sua actuação, até que agora o quadro das premissas essenciais da sua existência quase está completa de molde a que o cine-clubismo possa entrar na fase final de colher os seus saborosos frutos. E tais frutos são uma sólida consciência crítica em face da obra cinematográfica e uma lúcida compreensão das coordenadas artísticas do cinema. Excluo especiais referências ao humano, pois no artístico anda ele implícito. Arte sem o humano, apenas será indústria, tal como cinema sem a arte será apenas técnica.

Enfim, o objectivo é aqui o de obter consciência crítica, lúcida compreensão e tudo o resto que define atitudes comuns a todas as realizações culturais e actividades do pensamento, seja na literatura, na música, na pintura e no teatro, seja no cinema. Mas obtê-la pela forma mais directa e cómoda, já que a vida moderna absorve, na vertigem da velocidade e na diversidade dos aspectos que detêm a nossa atenção, o tempo necessário ao estudo pausado e lento das artes e das letras. Os clubes de literatura, os clubes de Belas Artes, os de teatro e os de cinema, são tanto mais urgentes quanto menor é a nossa disponibilidade de tempo e maior a necessidade de mantermos o espírito sempre ligado às realizações do próprio espírito. E se o desgaste e a saturação na vida moderna requerem a evasão, que a evasão se faça pela cultura, que assim se cria riqueza e se recuperam energias. Por tudo isto, os cine-clubes são organismos associativos, ou seja, formas colectivas da actividade cultural.
O cine-clubista, não é um indivíduo entregue ao livre arbítrio e ao perpétuo complexo da auto-selecção e da auto-crítica: ―que livro hei-de comprar? Que peça hei-de ler?, que música devo ouvir?, que fita devo ver? Para ele, também e mercê do contacto fácil e directo com um material seleccionado e analisado, o cinema não será um passatempo caro e inútil, mas uma distracção proveitosa e necessária que o leva, não a esquecer os seus problemas de vida, mas a compreendê-los e a superá-los. Ir ao cinema será também uma necessidade vital, tão vital como ler um livro ou ouvir um trecho musical, pois em potencial, felizmente, todo o homem é um leitor, um ouvinte ou um cinéfilo. E claro, mesmo que seja um cine-clubista puro, também pode ir ao futebol chamar nomes ao árbitro, quando o seu temperamento ferve, sem ele querer, à flor da pele.

Os cine-clubes são, pois, associações culturais debruçadas sobre o ramo artístico do cinema. Ora, como o cinema é uma síntese das artes, o cine-clubismo, debruça-se implicitamente sobre todas elas. O cinema tem, porém, a sua linguagem própria, específica; logo, as suas regras gramaticais, a sua escrita, a sua pontuação. Ver cinema, implica pois saber ler no écran. A função dos cine-clubes é consequentemente didáctica. Mas também é analítica, coordenadora, e valorativa da própria arte em si; por extensão é-o de todas as artes; e por extensão ainda é-o do comportamento humano, pois que (parafraseando de memória o Papa Pio XII), «ajuda os homens a solucionarem os seus problemas e a compreenderem-se de modo, a definirem e respeitarem os problemas de Direito e de Justiça».
Por tal facto, os cine-clubes são contra a especulação comercial, o baixo produto industrial, as falsidades artísticas. Os cine-clubes pretendem que as refeições que lhes servem sejam apuradas, tratadas, requintadas e suculentas. Nada de gato por lebre ou de cogumelos venenosos. Nada de vinho do Porto... «tinto».
Mas, de quanto tempo precisa um iniciado na leitura para distinguir um bom livro de um romance de cordel? A acção dos cine-clubes, é assim uma coisa a modos que lenta e gradual, se não mesmo complexa. Esquematizar os ciclos de aprendizagem, criar aulas práticas, fornecer a teoria da técnica e da estética do cinema, divulgar os seus fins, estimular um bom cinema nacional, defender a existência de uma arte que só se realiza por mil operações financeiras, são muitas das suas tarefas. Para atender a todos estes aspectos, os cine-clubes organizarão conferências, exposições, concursos de cinema experimental ―que sei eu! ―empreenderão múltiplas actividades. Não serão concorrentes seja de quem for ou do que for. Irão perto, irão longe ―isso é função das condicionantes e do meio. Mas de qualquer modo, se os norteia um objectivo cultural bem definido e estruturado, irão sempre longe. A base da sua actividade será, porém, a organização de sessões de formato normal, como a de hoje, e outras de formato sub-standard.
Normal, diz-se dos filmes em exploração comercial, sub-standard daqueles cuja película de celulóide mede 16 mm., 9,5 mm. e 8 mm. de largura. Com as fitas de formato reduzido, sub-standard, podem os cine-clubes organizar as suas próprias cinematecas, realizando com elas sessões de estudo. É evidente que para projectá-las os cine-clubes terão que obter uma máquina de projecção. Mas o que se não pode fazer de útil com essa caixinha milagrosa de projectar imagens em movimento, nos hospitais, casas do povo, escolas, fábricas, clubes desportivos, etc., etc..
O cine-clubismo é um largo campo de acção cultural e uma enorme via do conhecimento. É uma fonte de divulgação tão dinâmica quanto a vida moderna. Foi pelo cinema que a Exposição de Bruxelas chegou até nós, no próprio dia da inauguração e é pelo cinema que a Exposição subsistirá viva mesmo depois de encerrada. Assim em tudo, por ser esta força dinâmica a verdadeira essência da arte e da técnica que os cine-clubes divulgam, estudam e protegem.
Já alguém disse que a descoberta do cinema foi tão importante para a humanidade, quanto a invenção da prensa de Gutemberg. Talvez a rádio, a televisão, as comunicações telegráficas nascidas quase com o cinema, tornem um pouco pretenciosa esta comparação. Mas eu sinto que nem o cinema foi completamente explorado nas suas finalidades, nem sobre ele há ainda perspectiva histórica que determine a sua importância absoluta. Aos cine-clubes cabe o papel de definirem quais as tarefas do cinema no mundo actual.
Neste ponto devo parar. Faço-o por duas razões:
1 ― porque não creio, tal como receava, ter definido o que era um cine-clube; 2 ― porque, ao atribuir tão sérias responsabilidades à acção dos cine-clubistas aqui presentes, talvez esteja apressando a demissão de alguns sócios ―o que contraria os meus desejos. Mas parar e não pedir desculpa nem agradecer a honra que me deram e à atenção com que me ouviram, nem seria correcto, nem estaria nos meus hábitos.
Creiam-me, pois, penalizado e arrependido pelo tempo que lhes roubei e agradecido pela condescendência e tolerância que leio no rosto de cada um de vós.
Tenho dito.
 
posted by Eduardo Brito at 9:59 da tarde | Permalink |


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