27.4.08
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O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde é um conto escrito por Robert Louis Stevenson no ano de 1885. Em Portugal recebeu, até há pouco, o título de O Médico e o Monstro. Conta a história de um bondoso médico, o Dr. Henry Jekyll que, depois de ingerir uma poção, se transforma no terrível Sr. Edward Hyde. É, talvez, a obra mais conhecida do autor de Uma Apologia dos Ociosos. Ao longo do tempo, O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde conheceu diversas adaptações a teatro e cinema.

E. T. A. Hoffmann foi um escritor que viveu entre 1776 e 1822. As suas obras, de cariz fantástico, são consideradas clássicos do romantismo alemão. Richard Wagner quis até adaptar a ópera o conto As Minas de Falun, mas acabou por se decidir pela história de Tannhäuser. R. J. Hollingdale, em Tales Of Hoffmann, Ed. Penguin Classics, 1982, descreve Ernest Theodore Amadeus Hoffmann da seguinte forma:
“Era um homem esquizofrénico, de duas facetas: de dia, um advogado e decente cidadão; de noite, um fantasista com um forte pendor para o bizarro e o estranho. Temperamentalmente, era um humorista anárquico (...)”.


John Barrymore como Jekyll e Hyde. Fotogramas do filme Dr. Jekyll And Mr Hyde.
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Se no cinema se têm como notáveis as versões realizadas por John S. Robertson em 1920 – com o grande John Barrymore no papel principal – e por Victor Flemming em 1941, com Spencer Tracy e Ingrid Bergman, no teatro uma representação de O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde aparenta superar todas as outras: a protagonizada pelo lendário Richard Mansfield.

Pouco mais de um ano depois da publicação de O Estranho Caso do Dr. Jeckyll e do Sr. Hyde, o encenador T. Russell Sullivan adapta a novela para teatro, convidando Richard Mansfield para o papel principal. A peça estreou em Londres no final de 1887 e esteve em cena no Lyceum Theatre durante o ano seguinte. Rezam as crónicas que as transformações em palco de Mansfield Jekyll em Mansfield Hyde eram impressionantes.

Houve mesmo quem suspeitasse que o actor – por força de tão fascinante e intrigante transformação – pudesse ser Jack o Estripador. Tal suspeição é mesmo tida em conta no telefilme Jack The Ripper, de 1988, realizado por David Wickes. Mansfield é aí representado por Armand Assante. Por sinal, em 1990, o mesmo David Wickes viria a realizar Jekyll And Hyde, com Michael Caine no principal papel. Mas regressemos ao verdadeiro Richard Mansfield.


Richard Mansfield como Jekyll e Hyde. Fotografia de Henry Van der Weyde.
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A fotografia mostra um Mansfield Jekyll aéreo e um Mansfield Hyde feroz e aterrador. A dupla exposição, mais que perfeito modo de retratar a personagem, foi feita pelo fotógrafo Henry Van der Weyde no ano de 1895, nos seus estúdios no número 182 da Regent Street, Londres. Cento e treze anos depois, a imagem continua a conter um assustador encanto.

O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, Ed. Assírio & Alvim, Col. Beltenebros, 2007.

Cento e treze anos depois, a mesma imagem foi utilizada para a capa da belíssima edição da Assírio & Alvim, na Colecção Beltenebros, de O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde e Outros Contos.


Brandon Hurst como Sir George Carew. Fotograma do filme Dr. Jekyll And Mr Hyde.
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No filme de John S. Robertson, o papel de Sir George Carew é desempenhado por Brandon Hurst, um actor com papeis secundários em centenas de filmes mudos do cinema norte americano.


The Photographer's Wife. Imagem de capa de Eric Rondepierre.

Em 1996 é lançada a banda sonora original do filme The Photographer’s Wife, composta por Stina Nordenstam e Anton Fier. Se o disco existe – composto apenas por três faixas – o mesmo talvez não se possa dizer do filme. Nenhuma informação existe sobre ele (esta é, sem dúvida descoincidente), nem mesmo no próprio disco. Apenas uma frase, qual crítica exigente, aposta entre o título: “it’s problematical. It’s frustrating as hell. It’s extremely demanding and totally satisfying.”

O trabalho fotográfico da capa é assinado pelo francês Eric Rondepierre. Faz parte da série Précis de Décomposition, onde o autor fotografa fotogramas corroídos ou estragados de filmes mudos. Ou seja: se de um lado temos um filme inexistente, cujo único trabalho gráfico que o identifica é uma fotografia de um fotograma – logo, de outra fotografia-, do outro temos a existência da sua banda sonora. De um lado temos uma fotografia de um fotograma de um filme mudo, do outro, um fotograma de um filme mudo parecido com a fotografia de um fotograma de um filme mudo, sendo que o fotograma que se parece com a fotografia é de um filme que adapta um livro que versa sobre a ideia de duplicidade, de um lado e outro.

A 7 de Agosto de 1879, o engenheiro, jurista e escritor Robert Louis Stevenson viajou da Escócia até à Califórnia à procura de Fanny Van De Grift Osbourne, uma americana que conhecera tempos antes em Paris e por quem se apaixonara perdidamente. Aportou em Nova Iorque a 18 de Agosto. Meteu-se num comboio para o Oeste, onde chegou semanas depois, doente e sem dinheiro. Acampou nas montanhas durante quinze dias. A sua sua saúde, frágil desde sempre, agravou-se consideravelmente. Foi tratado por uma tribo de índios. Em Maio de 1880, casou com Fanny Osbourne em S. Francisco*.


* informação recolhida nos Dados Biográficos, por Célia Henriques, in Uma Apologia dos Ociosos, de Robert Louis Stevenson, ed. & etc, 2005.


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posted by Eduardo Brito at 12:26 da manhã | Permalink |


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