25.2.08
low profile.
A toponímia diz que ali é o Largo Condessa do Juncal. Mas toda a gente o trata por Feira do Pão, nome bonito, antigo e humano, tão humano. É um lugar discreto, arrumado no interior do centro da cidade. Quando por lá se passa nas tardes de sábado, o passo desacelera com as melodias que caem do edifício da Academia de Música. Um clarinete em espirais, um violino em afinações abrem a porta para o largo propriamente dito. Aí, bem lá no meio, nas épocas de estio há uma esplanada nojenta, de serviço descuidado e miserável. Nos bancos de jardim debaixo do arvoredo ressacam bêbedos e drogados, distantes do tempo que por ali passa. Porém, o largo é um lugar tranquilo, com um charme próprio, onde o vento, os pássaros e alguns berros cortam o silêncio em três.

Do Largo da Feira do Pão sai-se para os seguintes lugares: para a Praça do Toural, mais ampla e aberta, coração da cidade, pela Porta Nova, assinalada no chão de granito; para a rua da Arrochela, paralela à muralha da cidade, com casas de corredores suspensos que a atravessam de um lado ao outro; para a rua do Anjo, sinistra e escura, que desemboca outra vez no Largo e cujo enfiamento se interrompeu pelo ruir de um prédio; para a Tulha, elegante quarteirão com três barbearias em trinta e nove metros; para a Alameda de S. Dâmaso, pejada de autocarros e passeantes, pelas escadinhas do Mestre Caçoila; para a Rua Nova, estreita e curva, de casas esguias e tortas, cheia de tabernas e lençóis a secar e mulheres à janela;.

Na Feira do Pão há uma feira do livro. Uma barraca branca, arrumada, de interior escuro, onde as editoras escoam os últimos exemplares de várias edições, raras novidades, livros velhos e gastos e edições noutras línguas. Lá pelo meio, encontro um nome, Anthony Trelawney Long que, em edição de autor, publicou há vinte e oito anos um livro de sessenta páginas chamado “Low Profile”. Por um euro e cinquenta, trago-o comigo para casa.
 
posted by Eduardo Brito at 9:07 da tarde | Permalink |


2 Comments:


At 11:15 da tarde, Blogger Fernando Nunes

Belo texto, putz!

 

At 8:23 da tarde, Blogger Esferovite

Parece-me que a rua do Anjo desemboca, para quem vem da feira do pão, no Largo A.L. de Carvalho, o mesmo para o qual dá o lado da Academia, e o mesmo por onde se acede à Arrochela e ao Toural... Mas é difícil distinguir onde termina a feira, a do pão, e onde começa o largo do escritor, o Carvalho. Talvez se ainda lá houvesse a Igreja de S. Paio fosse mais fácil.