3.1.08
sobre o barão de ausenthal (4): a palavra.
(...) Ausenthal deteve-se longamente na passagem das plúmbeas nuvens pela planície, anunciando imensa chuva. Sempre que contemplava uma paisagem, sentia o tempo dentro de si, a passagem de todos os dias, de todas as horas de todos os dias pelo lugar que tão fixamente observava. Laura, quebrando-lhe a rigidez de tão hipnótica concentração, perguntou-lhe qual a sua palavra preferida, oh pueril questão, e o Barão, sem a olhar, respondeu pronta e pausadamente, com a firmeza de algo já dito em outras ocasiões:
- Oxalá: a palavra que contém o tempo que há-de vir. A palavra que deseja, que sonha, que pede silêncio; o princípio de toda a incerteza. A palavra tolerante. Oxalá.
Imóvel, o Barão de Ausenthal olhava agora as primeiras gotas de chuva que caiam na planície seca, adivinhando o perfume que a terra começara já a libertar.



Xavier Quaresma: A Desventurada Vida do Preclaro Barão de Ausenthal, 1901, ed. do Autor, página 501.

- Sobre o Barão de Ausenthal (1): A Memória Olfactiva
-Sobre o barão de Ausenthal (2): A Gravura
- Sobre o barão de Ausenthal (3): As Cicatrizes

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