1.10.07
quatro outonos.
Um, cinco anos, um irmão recém nascido, a escola começou há pouco tempo, está frio e a camisola vermelha pica-me, escrevo e desenho com uma bic cristal azul e os corredores da casa da minha avó cheiram a marmelada acabada de fazer.
Dois, dezassete anos, é fim de tarde numa minúscula casa com vista para uma rua rectilínea, deserta, cheira a chuva acabada de cair e a detergente concentrado para a louça e eu sinto-me cheio de ar inspirado por estar ali com a vida toda à janela.
Três, vinte e um anos, cinco e cinquenta da tarde, o sinal vermelho dos peões é de um vermelho vivo nunca visto, quase que fere, ao longe o arranha céus em forma de lápis sobressai a negro no poente colorido, vem aí o autocarro a descer a avenida larga da cidade imensa e na paragem alguém diz amanhã é capaz de nevar.
Quatro, tenho quase trinta anos, o pescoço torcido, estou imobilizado num sofá a ver desinteressadamente um filme noir, a sentir o aroma de comida deliciosa acabada de fazer e a olhar a luz alaranjada quebrada nos estores das janelas da sala da casa da rua antiga quando a memória me traz, tão nítidos, três outonos que já foram.
 
posted by Eduardo Brito at 6:26 da tarde | Permalink |


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