28.9.07
tempos depois.
Foi um fim de tarde em que num instante o sol se escondeu por trás das nuvens que pareciam ser feitas do mesmo algodão doce que se vendia naquela feira, prenunciando tempestade. Com o acinzentar do céu, o alaranjado da terra batida ficou mais vivo. Andamos de carrossel com a alegria de dois miúdos, trincámos frutas embebidas em sacarina, subimos à torre da roda giratória e observámos a cidade a ficar lentamente anoitecida e enublada, a perder-se no ocaso antes da chuva. Temos tudo isto para conhecer, disseste-me quase ao ouvido, e apontaste para a cidade inteira avistada lá do alto.
 
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12.9.07
sobre o barão de ausenthal (2): a gravura.

Wreck Off The Cornish Coast,
publicado por Raphael Tuck & Sons, Ltd.


No final dos seus dias, o Barão de Ausenthal passava longas horas de pé, de corpo hirto e mãos cerradas nas costas, como se com tal pose, que sofridamente aguentava, pudesse enganar o tempo tanto que por si houvera passado. Detinha-se demoradamente a mirar uma gravura de vinte por dez centímetros, emoldurada na sua parede grená, como se nada mais houvesse naquela sala pejada de memórias de uma vida inteira. Quando alguém dele se acercava, quase sempre dizia com a sua voz grave e trémula:
- Esta imagem há-de um dia inspirar alguém. Seja por isso que aqui há-de quedar.
E olhava. Olhava perdidamente aquela gravura que comprara no seu regresso à Cornualha: afinal, aquele tinha sido o seu naufrágio quarenta anos antes. (...)
Após a morte do Barão, a imagem foi vendida a José Joaquim de Lemos, que a expôs na sua livraria à Porta da Vila.

Xavier Quaresma: A Desventurada Vida do Preclaro Barão de Ausenthal, 1901, ed. do Autor, página 247.

- Sobre o Barão de Ausenthal (1): A Memória Olfactiva
 
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11.9.07
à espera de história.

Para embarcar no Titanic, José Joaquim de Brito pagou 13 libras pelo bilhete de 2ª classe número 224.360. Deixou como contacto o endereço de um homem chamado Frederico Duarte: nº 34, Mulgrave Street, Liverpool. José Joaquim de Brito tinha 40 anos e residia em Londres. Depois de uma estadia em Nova Iorque, tinha planos para rumar a São Paulo.

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posted by Eduardo Brito at 11:47 da tarde | Permalink | 2 comments
de regresso.
O Polaris está de regresso às histórias do Círculo do Urso. Retoma-se o fio ao silêncio.
 
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1.9.07
as imprecisões, ano um.

We reached Ullapool at the end of the morning. The weather was rainy and cold. We stopped for a quick lunch at the Ceilidh and after we walked around the town, wetted by the constant rain. At the pier, I asked an old lady for the post office: I had a postcard to send, telling stories from the north.
 
posted by Eduardo Brito at 4:05 da tarde | Permalink | 0 comments
o blog, ano um.
"À desaforada esperança, como é natural, sucedeu-se uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira nalgum hexágono continha livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessassem as buscas e que todos os homens misturassem letras e símbolos, até construírem, por meio de um improvável dom do acaso, esses livros canónicos. As au­toridades viram-se obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapa­receu, mas na minha infância vi homens velhos que longamente se ocul­tavam nas latrinas, com uns discos de metal num covilhete proibido, e fracamente imitavam a divina desordem."

Jorge Luís Borges
 
posted by Eduardo Brito at 12:01 da manhã | Permalink | 4 comments