15.9.06
a northern tragedy.

Em 1496, Jaime IV, rei da Escócia, concessionou ao holandês Jan de Groot a exploração da travessia entre o norte do país e as ilhas Orkney. De Groot escolheu o ponto mais próximo entre os dois lugares e ali decidiu ficar até ao fim dos seus dias, transportando os poucos passageiros que acorriam a tão inóspita zona. Tomou a terra deserta como sua e a terra deserta tomou o seu nome, agora em inglês: John O’Groats. Pouco mais de três séculos depois, é a vez de outro holandês com o nome de de Groot chegar à mesma zona com um único propósito: descobrir a história do homem que deu nome à povoação mais a norte da Main Britain.

É assim que principia a narração de A Northern Tragedy, documentário realizado pelo escocês Brett Nollum (Wick, 1971), baseado nos diários de Wim de Groot, o último descendente holandês de John O’Groats. Durante dois anos, Wim explorou e investigou a vida do seu antepassado. Mas A Northern Tragedy é muito mais do que um simples documentário sobre os diários de Wim, escritos entre 1862 e 1863. É uma história que começa por se estruturar com o propósito de nos contar outra história: através da escrita precisa, detalhada e eloquente de Wim de Groot, aliada a uma excelente e criteriosa utilização de imagens e consequente montagem, o espectador fica a conhecer Jan e a sua vida num lugar inóspito, belo e solitário. Aliás, é precisamente para a história de Jan que nos remete o mote dado pela narração inicial acima transcrita, desenvolvida, por exemplo, no encontro que Wim de Groot tem com um pastor, que lhe conta a história do seu antepassado. (Anos mais tarde Robert e John Naylor usariam exactamente o mesmo relato no seu diário de viagens From John O’Groats to Land’s End, num claro indício que os próprios terão tido acesso ao diário de Wim de Groot). O espectador, quase de forma automática, começa a usar Wim como um intermediário para chegar a Jan: a breve e cuidada apreciação que Wim faz sobre as gentes, sobre a paisagem e sobre a sua própria rotina diária quase não desperta grande interesse; antes existe uma ávida vontade em querer saber tudo sobre Jan de Groot, à espera que, a qualquer momento, surja um grande acontecimento que ateste cabalmente a heroicidade ou a tragédia da vida do marinheiro holandês. Mas não. Nada de particularmente especial acontece. Contudo, é nesta pseudo fraude que reside o virtuosismo do realizador Brett Nollum, pois ao conseguir canalizar toda a atenção do espectador para uma história – a de Jan - feita e contada por uma outra – a de Wim, potencia, e de que maneira, a surpresa que se segue à referida absorção de tudo o que diz respeito a Jan de Groot. Rapidamente se compreende que o centro das atenções é – e sempre devia ter sido - Wim de Groot. Ao fim e ao cabo, ele sempre foi o personagem principal e a voz de tudo o que foi dito. É que, a 15 de Julho de 1863, Wim de Groot, sem qualquer justificação ou indício, deixa de parte toda e qualquer anotação sobre si, sobre o que o rodeia e sobre as investigações que estava a fazer. Eis o derradeiro capítulo da sua escrita diarística: no seu registo desse dia apenas uma cantiga de origem popular:

I went in a boat
To see John o' Groat,
The place where his home doth lie;
But when I got there,
The hill was all bare,
And the devil a stone saw I.

Três meses depois, Wim de Groot é encontrado morto a dez quilómetros de John O’Groats, mais precisamente no desfiladeiro de Dunnet Head. Sinais evidentes de escorbuto e de marcas de agressões eram visíveis no seu corpo. Na sua mala, um bilhete para as ilhas Orkney – precisamente a travessia explorada pelo seu antepassado – e o diário, estranhamente intacto, como se ali tivesse sido pousado muito tempo depois da sua estranha morte.
O mistério da morte de Wim de Groot acaba por agarrar-nos por completo, fazendo-nos esquecer o quão embrenhados estivemos na história de Jan de Groot. É, pois, assim que Wim se torna no protagonista de uma história insólita, macabra e cruel, ilustração perfeita da inegável propensão para o mal que a natureza humana tem. Sob a falsa roupagem de documentário, A Northern Tragedy é um verdadeiro thriller, como há muito não se via.

A Northern Tragedy - Brett Nollum, Escócia, 2006, 80 minutos, cor. Narração de James Hordern.



Fotogramas do documentário A Northern Tragedy (para ampliar, clicar aqui).

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posted by Eduardo Brito at 3:45 da tarde | Permalink |


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