27.9.06
hong kong.


Eles proíbem os fotógrafos de captar imagens depois da terceira música. Nada que uma boa objectiva e dois dedos de descrição não resolvam. Foi assim no Coliseu, no Atlântico, na Brixton. Não havia de ser diferente na Opera House. Manchester estava fria, feita de um Outono inóspito e suspeito. Nada que a entrada naquele teatro cheio de história não esvanecesse. As músicas sucedem-se, ora uma, ora outra. Segue-se o alinhamento do álbum e a aparente normalidade transforma-se em surpresa. Ritmo após ritmo, acorde após acorde. E ele sempre na penumbra, como se não fosse uma estrela brilhante desse firmamento efémero. A pergunta ganha forma: há vida depois dos dias do demónio? Há vida depois do homem de garrafa na mão e dentes podres, amparado pela voz doce e sorridente? Há vida depois das ondas do coro, agitadas pelos braços de sombra? Sim, tem que haver. E eis que ele sai do escuro, adocicado pela filigrana do Gu-Zheng, pelo sorriso de Zeng Zhen, pelas palmas de um público em profunda admiração. Cedo se cede à melancólica melodia da voz, vista numa discreta (ou quase forçada?) exposição. E eu ali estou em frente a ele, a ela, a eles, a eles todos, a cair de joelhos com a força de cada acorde, com o amor de cada compasso, a querer ter alma, Lord hear me now, a querer ser tudo, I’m just a pill in your tongue, a descer lá baixo, ao lugar onde todos já descemos, the neon lights make me come, a ser nada, music turns into thin air. E ele na claridade, finalmente revelado, realidade sobre falsa verdade depois de todas as sombras. E a máquina treme. Treme e dispara, vezes sem conta. A máquina sabe. Sabe que esse escuro era mais que qualquer luz, sabe que a melancolia não se fotografa, sabe que a vontade de chorar é um ensejo. Mas está ali tudo à vista, um pequeno milagre em Manchester, levado a cabo pela voz que unifica, pela voz que diz tudo sem nada dizer, pela voz moldada pela melodia como o barro moldado pelas mãos. E depois as palmas, as palmas de pé, os aplausos que se palmam até à dor das mãos. E por fim as lágrimas, que se lixem as fotografias tremidas, esta podia ser a música de todos os meus filmes. E por isso não a fotografo.
 
posted by Eduardo Brito at 3:54 da tarde | Permalink |


2 Comments:


At 10:12 da manhã, Blogger JC

Obrigado por teres partilhado comigo este vídeo em primeira mão, apesar do som, lembras-te, muito fraquinho... deu para se perceber isso tudo que relatas.
É muito bom.

 

At 1:43 da manhã, Anonymous JP Sousa

E tudo isto começou, num pequeno apartamento em Londres, partilhado com o Jamie Hewlett ... numa noite em que ambos se encontravam aborrecidos pelo facto de, ao fazerem zapping, só encontrarem lixo televisivo ...