29.9.06
barman, coimbra, maio de 1998.
Depois de se diluir no vermelho, foi ter com um amigo lisboeta às barraquinhas, onde se embebedou até se transformar num zero redondo e cair assim nos lençóis do quarto da pensão rasca.
 
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27.9.06
hong kong.


Eles proíbem os fotógrafos de captar imagens depois da terceira música. Nada que uma boa objectiva e dois dedos de descrição não resolvam. Foi assim no Coliseu, no Atlântico, na Brixton. Não havia de ser diferente na Opera House. Manchester estava fria, feita de um Outono inóspito e suspeito. Nada que a entrada naquele teatro cheio de história não esvanecesse. As músicas sucedem-se, ora uma, ora outra. Segue-se o alinhamento do álbum e a aparente normalidade transforma-se em surpresa. Ritmo após ritmo, acorde após acorde. E ele sempre na penumbra, como se não fosse uma estrela brilhante desse firmamento efémero. A pergunta ganha forma: há vida depois dos dias do demónio? Há vida depois do homem de garrafa na mão e dentes podres, amparado pela voz doce e sorridente? Há vida depois das ondas do coro, agitadas pelos braços de sombra? Sim, tem que haver. E eis que ele sai do escuro, adocicado pela filigrana do Gu-Zheng, pelo sorriso de Zeng Zhen, pelas palmas de um público em profunda admiração. Cedo se cede à melancólica melodia da voz, vista numa discreta (ou quase forçada?) exposição. E eu ali estou em frente a ele, a ela, a eles, a eles todos, a cair de joelhos com a força de cada acorde, com o amor de cada compasso, a querer ter alma, Lord hear me now, a querer ser tudo, I’m just a pill in your tongue, a descer lá baixo, ao lugar onde todos já descemos, the neon lights make me come, a ser nada, music turns into thin air. E ele na claridade, finalmente revelado, realidade sobre falsa verdade depois de todas as sombras. E a máquina treme. Treme e dispara, vezes sem conta. A máquina sabe. Sabe que esse escuro era mais que qualquer luz, sabe que a melancolia não se fotografa, sabe que a vontade de chorar é um ensejo. Mas está ali tudo à vista, um pequeno milagre em Manchester, levado a cabo pela voz que unifica, pela voz que diz tudo sem nada dizer, pela voz moldada pela melodia como o barro moldado pelas mãos. E depois as palmas, as palmas de pé, os aplausos que se palmam até à dor das mãos. E por fim as lágrimas, que se lixem as fotografias tremidas, esta podia ser a música de todos os meus filmes. E por isso não a fotografo.
 
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21.9.06
& companhia.

"(...) a fotografia foi tirada há muito tempo atrás, na Shakespeare & Company, em Paris. Nunca teve ensejo de querer ser mais do que uma construção da minha memória daquele espaço, capturando o reflexo dos livros num espelho com fotografias, desenhos e bilhetes de muitos leitores e viajantes que por lá passaram. Mas a leitura da imagem, feita meses depois, revelou muito mais do que uma simples fotografia de viagem: o acaso deu-me a conhecer uma outra história, escrita numa folha de papel, colada nesse mesmo espelho. Uma história sem tempo, sem nomes e sem rostos. Uma história de uma infinita tristeza:

"(Dear) George – I came (to) this place as one would (go) to a chapel. I’ve spent (the) last hour trying (to) decide if I should end my life.

My 21 year old son was a (victim) of bipolar disease (and /who) committed suicide by jumping off of Brooklyn Bridge.

(If) he could have discovered (this), your bookshop, this (miracle), perhaps he would have suvived.

(I) want to thank you for (…) the hope." "

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posted by Eduardo Brito at 3:16 da tarde | Permalink | 3 comments
15.9.06
a northern tragedy.

Em 1496, Jaime IV, rei da Escócia, concessionou ao holandês Jan de Groot a exploração da travessia entre o norte do país e as ilhas Orkney. De Groot escolheu o ponto mais próximo entre os dois lugares e ali decidiu ficar até ao fim dos seus dias, transportando os poucos passageiros que acorriam a tão inóspita zona. Tomou a terra deserta como sua e a terra deserta tomou o seu nome, agora em inglês: John O’Groats. Pouco mais de três séculos depois, é a vez de outro holandês com o nome de de Groot chegar à mesma zona com um único propósito: descobrir a história do homem que deu nome à povoação mais a norte da Main Britain.

É assim que principia a narração de A Northern Tragedy, documentário realizado pelo escocês Brett Nollum (Wick, 1971), baseado nos diários de Wim de Groot, o último descendente holandês de John O’Groats. Durante dois anos, Wim explorou e investigou a vida do seu antepassado. Mas A Northern Tragedy é muito mais do que um simples documentário sobre os diários de Wim, escritos entre 1862 e 1863. É uma história que começa por se estruturar com o propósito de nos contar outra história: através da escrita precisa, detalhada e eloquente de Wim de Groot, aliada a uma excelente e criteriosa utilização de imagens e consequente montagem, o espectador fica a conhecer Jan e a sua vida num lugar inóspito, belo e solitário. Aliás, é precisamente para a história de Jan que nos remete o mote dado pela narração inicial acima transcrita, desenvolvida, por exemplo, no encontro que Wim de Groot tem com um pastor, que lhe conta a história do seu antepassado. (Anos mais tarde Robert e John Naylor usariam exactamente o mesmo relato no seu diário de viagens From John O’Groats to Land’s End, num claro indício que os próprios terão tido acesso ao diário de Wim de Groot). O espectador, quase de forma automática, começa a usar Wim como um intermediário para chegar a Jan: a breve e cuidada apreciação que Wim faz sobre as gentes, sobre a paisagem e sobre a sua própria rotina diária quase não desperta grande interesse; antes existe uma ávida vontade em querer saber tudo sobre Jan de Groot, à espera que, a qualquer momento, surja um grande acontecimento que ateste cabalmente a heroicidade ou a tragédia da vida do marinheiro holandês. Mas não. Nada de particularmente especial acontece. Contudo, é nesta pseudo fraude que reside o virtuosismo do realizador Brett Nollum, pois ao conseguir canalizar toda a atenção do espectador para uma história – a de Jan - feita e contada por uma outra – a de Wim, potencia, e de que maneira, a surpresa que se segue à referida absorção de tudo o que diz respeito a Jan de Groot. Rapidamente se compreende que o centro das atenções é – e sempre devia ter sido - Wim de Groot. Ao fim e ao cabo, ele sempre foi o personagem principal e a voz de tudo o que foi dito. É que, a 15 de Julho de 1863, Wim de Groot, sem qualquer justificação ou indício, deixa de parte toda e qualquer anotação sobre si, sobre o que o rodeia e sobre as investigações que estava a fazer. Eis o derradeiro capítulo da sua escrita diarística: no seu registo desse dia apenas uma cantiga de origem popular:

I went in a boat
To see John o' Groat,
The place where his home doth lie;
But when I got there,
The hill was all bare,
And the devil a stone saw I.

Três meses depois, Wim de Groot é encontrado morto a dez quilómetros de John O’Groats, mais precisamente no desfiladeiro de Dunnet Head. Sinais evidentes de escorbuto e de marcas de agressões eram visíveis no seu corpo. Na sua mala, um bilhete para as ilhas Orkney – precisamente a travessia explorada pelo seu antepassado – e o diário, estranhamente intacto, como se ali tivesse sido pousado muito tempo depois da sua estranha morte.
O mistério da morte de Wim de Groot acaba por agarrar-nos por completo, fazendo-nos esquecer o quão embrenhados estivemos na história de Jan de Groot. É, pois, assim que Wim se torna no protagonista de uma história insólita, macabra e cruel, ilustração perfeita da inegável propensão para o mal que a natureza humana tem. Sob a falsa roupagem de documentário, A Northern Tragedy é um verdadeiro thriller, como há muito não se via.

A Northern Tragedy - Brett Nollum, Escócia, 2006, 80 minutos, cor. Narração de James Hordern.



Fotogramas do documentário A Northern Tragedy (para ampliar, clicar aqui).

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posted by Eduardo Brito at 3:45 da tarde | Permalink | 0 comments
8.9.06
ouro sobre negro.
Entre 30 de outubro e 1 de novembro de 2004, viajei com a jornalista Susana Ribeiro pela Costa da Morte, na Galiza. O objectivo foi uma reportagem jornalística sobre a passagem do segundo aniversário do naufrágio do petroleiro Prestige. O resultado apareceu publicado no suplemento Fugas, do jornal Público, a 13 de Novembro de 2004, precisamente dois anos após a tragédia. Aqui ficam algumas das fotografias que tirei - umas publicadas na referida reportagem, outras não - seguidas do texto de Susana Ribeiro.
 
posted by Eduardo Brito at 5:28 da tarde | Permalink | 4 comments
2.9.06
desordem technicolor.
Oito imagens de 120 x 90 cm, oito fotogramas de quatro filmes de Alfred Hitchcock. É assim HitchHiking, a primeira exposição de Duarte Pinto.

Duarte Pinto: Hitch Hiking # 5. 2006.

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posted by Eduardo Brito at 2:22 da manhã | Permalink | 0 comments
1.9.06
terceira imprecisão.
Agora que as luzes caem
E o chão lhes ampara o brilho
Abraço o silêncio das horas
Feito de intranquilos passos.
 
posted by Eduardo Brito at 3:03 da manhã | Permalink | 1 comments
segunda imprecisão.

We reached Ullapool at the end of the morning. The weather was rainy and cold. We stopped for a quick lunch at the Ceilidh and after we walked around the town, wetted by the constant rain. At the pier, I asked an old lady for the post office: I had a postcard to send, telling stories from the north.
 
posted by Eduardo Brito at 2:02 da manhã | Permalink | 1 comments
primeira imprecisão.

Por muito que as tuas canções apareçam depois da minha partida, a tua música será sempre parte da cidade onde nunca mais consegui voltar. A atmosfera de cada compasso, da voz, do acorde que vem a seguir a outro acorde devolvem-me o Outono e as folhas que caem, os rios que correm, as manhãs luminosas, os frios fins de tarde, a noite que arrefece as ruas e aquece o interior dos cafés. A tua música é o meu regresso, a tua voz é a cidade que é minha.
 
posted by Eduardo Brito at 1:01 da manhã | Permalink | 0 comments
zero.
"À desaforada esperança, como é natural, sucedeu-se uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira nalgum hexágono continha livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessassem as buscas e que todos os homens misturassem letras e símbolos, até construírem, por meio de um improvável dom do acaso, esses livros canónicos. As au­toridades viram-se obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapa­receu, mas na minha infância vi homens velhos que longamente se ocul­tavam nas latrinas, com uns discos de metal num covilhete proibido, e fracamente imitavam a divina desordem."

Jorge Luís Borges, em A Biblioteca de Babel.

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posted by Eduardo Brito at 12:01 da manhã | Permalink | 0 comments